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OPINIÃO: Uma análise sobre a invasão dos EUA na Venezuela e o que Joinville tem a ver com isso

Por Carlos Castro, jornalista.

Atualizado em 03/01/2026 às 13:01, por Redação.

A imagem mostra uma cena de bombardeio noturno.

Imagem de Caracas, a capital da Venezuela, sendo bombardeada pelos EUA na madrugada deste sábado. Foto: Reuters.

O ano de 2026 inicia com um ataque cirúrgico dos EUA contra a Venezuela, ocorrido na madrugada deste sábado (03). Foi com perplexidade que vimos as imagens de bombardeios a pontos militares em solo venezuelano nas cidades de Caracas, Fuerte Tiuna, Miranda, Aragua e La Guardia. 

Em minutos após o fato, Trump anuncia que Nicolás Maduro foi capturado. Fotos são exibidas nas redes sociais. A termo correto é sequestrado. Conforme a terceira Lei de Newton, após a ação há reação na mesma medida, intensidade e proporção. Cabe agora analisar os fatos para entendê-los e combatê-los.

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Há muito tempo, Nicolás Maduro se aproveita do legado de Hugo Chavez para fraudar eleições, perseguir opositores e, assim, manter o poder sob seu controle a qualquer custo sem qualquer respeito pela democracia. Durante 14 anos, Chavez comandou a Venezuela (1999 a 2013). Amado pelo seu povo, impediu que a águia estadunidense metesse as garras na maior riqueza do país, o petróleo. O conspiracionismo articulado pela CIA para se apropriar do ouro negro, obrigou Chavez a cassar concessão da RCTV e aumentar o número de ministros da Suprema Corte do país, já que haviam na instituição alguns títeres dos EUA. Chavez era um estadista inteligente com um carisma magnético inigualável. Superou Lula naquele momento histórico. 

Participei de dois eventos com a presença dele em Caracas, e me encantei ouvi-lo falar por horas. No primeiro deles, meteu o boné da Cipla na cabeça, falou da admiração pela nossa luta em defesa dos mil empregos num plenário lotado e aquilo foi um marco na nossa história. 

Fui testemunha ocular dos fatos. Estive na Venezuela algumas vezes, no período em que compus a direção da Cipla sob controle dos trabalhadores (2002 a 2007) quando uma parceria foi estabelecida entre a fábrica, diretamente com o presidente Chavez, num projeto chamado PETROCASAS. Isso nos encheu de orgulho.

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A parceria foi possível após participarmos, em 2005, do encontro que ressaltou a derrota da tentativa de golpe em 2002. Do Brasil, somente a Cipla e o MST foram convidados a participar do evento e suas oficinas de debates. A nossa tratava das fábricas recuperadas pelos trabalhadores e o governo Chavez financiou a viagem minha, de Serge Goulart, Salete e Vanderson para falarmos da experiência da Cipla sob o controle operário. Pouco tempo depois, a parceria foi selada no Palácio de Miraflores. 

Para quem não conhece a trajetória de Hugo Chavez e a tentativa golpista de lhe tirar do poder em 2002, articulada pelos EUA, recomendo que assistam ao vídeo A Revolução Não Será Televisionada.     

 


Feito essa introdução, reitero minha profunda admiração e respeito a Hugo Chavez e meu repúdio ao que Nicolás Maduro se tornou e fez de seu legado. 

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Nicolás Maduro não tem a capacidade, habilidades e o carisma de Chavez, foi virando um líder desqualificado e autoritário. A fraude eleitoral de 2024 que o elegeu com 51,2% dos votos, não foi reconhecida pelo Brasil. 
 

A situação mostrou que sua manutenção no poder estava por um fio ligado à memória afetiva do povo a Hugo Chavez e que repudia a entrega da principal riqueza do país aos EUA, o petróleo. Os mesmos embargos sofridos por Maduro, Chavez também sofreu e teve a capacidade de humilhar as investidas do Tio Sam contra seu governo. Havia um reconhecimento mundial da esquerda e dos social democratas ao presidente Chavez. No Fórum Social Mundial de 2005, foi o líder mais ovacionado gerando emoção incontida no seu discurso.  

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Chavez enfrentou seus opositores nas urnas. Não impediu Henrique Capriles de concorrer em 2012 e o derrotou com 54,42% dos votos. A emenda constitucional que permitiu reeleições ilimitadas, foi aprovada em 2009 por 54,36% dos eleitores. A média de abstenção nas duas eleições foi de 30%. Detalhe: na Venezuela o voto não é obrigatório.          

Os senhores da guerra em suas salas confortáveis do Pentágono, inconformados com a perda do controle do petróleo venezuelano, em sintonia com o desespero de Donald Trump que atinge 56% de desaprovação no primeiro ano do mandato, decidiram cometer um crime contra a soberania venezuelana. 

 

Nada justifica o ataque cometido contra o país sob a requentada falácia de combate ao narcotráfico. São caras de pau e tem desavisados que vão na pilha. 
 

A agressão de hoje é semelhante à ocorrida no Panamá em 1989, quando o general e ditador que por um período foi financiado pelos EUA, Manuel Noriega foi deposto e preso, no mesmo modus operandi neste sábado contra Nicolás Maduro.       

Confesso que estranhei a rapidez do sequestro de Maduro pelas forças invasoras yankees. Muito provavelmente, a CIA estava monitorando o passo a passo do presidente, mas em Caracas? Como explicar essa célere ação cirúrgica? Chama a atenção a operação ter deixado a vice-presidente, Delcy Eloina Rodrigues Gómez e o ministro da defesa, Vladimir Padrino Lopez, um chavista convicto, livres para rearticular o poder no país. Assista ao vídeo da declaração do ministro da defesa:


 

Obviamente que a oposição fantoche, manipulada pelos EUA, já está trabalhando para manter o golpe e tomar o poder. A ação parece ter sido pensada para desmoralizar e fragilizar o governo com a captura de Maduro que vai servir de troféu, na tentativa de criar as condições de instabilidade política que permita a direita venezuelana terminar o que Trump começou.  

O problema é que as pesquisas indicam 40% dos venezuelanos como chavistas declarados e com uma ação traumática como essa, muito provavelmente vai gerar revolta popular contra os opositores. Afinal, até as pedras sabem o que esses traidores farão e a serviço de quem estarão se controlarem o país. O povo venezuelano tem um histórico de resistência e combate contra o neoliberalismo. Basta lembrar do Caracazo, em 1989, quando um levante popular resultou em protestos contra o presidente títere dos EUA, Carlos Andrés Perez, que respondeu com violência através de sua força de segurança para assassinar e desaparecer com milhares de venezuelanos. 

O fato do Caracazo fez emergir a liderança do Tenente Coronel, Hugo Chavez e do movimento bolivariano ao tentarem derrubar o algoz, num golpe militar fracassado, em 1992. Foi aí que povo enxergou em Chavez, preso por dois anos, o líder para enfrentar a sangria da riqueza do país pelos EUA por uma classe política vira-lata e entreguista. Depois, já presidente, em 2002, quando Chavez foi preso num golpe, o povo reeditou o Caracazo, reativando o vulcão popular de Caracas e derrotou o golpismo. 

Está no DNA dos venezuelanos o anti-imperialismo e as brigadas bolivarianas não brincam em serviço. Duvido que o povo aceite inerte o golpe de hoje. O chavismo tem a vice-presidente e o ministro da defesa com as forças armadas sob o seu comando. Sem isso não tem tomada de poder.   

Basta dos EUA se comportarem como xerifes do mundo. Só idiotas para acreditarem na ladainha do narcotráfico para respaldar uma invasão imunda contra um povo guerreiro e soberano. Tirem as patas malignas da Venezuela e deixem seu povo decidir o seu destino. Trump se tornou uma ameaça mundial e essa instabilidade contra a paz precisa ter fim.


Redação

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